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Subprime Brasileiro

March 24, 2009 Autor: Fernando Kempf Categoria: Crédito

Como todo mundo sabe, ou leu em algum lugar, essa crise foi desencadeada basicamente pelo fato conhecido como “subprime”. O subprime, basicamente é o seguinte: nos EUA, o crédito sempre foi incentivado, e a população possui essa concepção altamente enraizada em sua cultura. A grande maioria dos bens duráveis pode ser financiada nos Estados Unidos.

Diferentemente do Brasil, lá as exigências são mínimias, o que faz com que qualquer cidadão, como pro exemplo, um jovem casal sem perspectivas e que “pula” entre empregos, consiga financiar seus imóveis em leves prestações e a perder de vista. Com essa liberação de crédito às pessoas de menor capacidade de pagamento, no auge do mercado imobiliario americano, grande parte dos financiamentos era feito para esse grupo de pessoas. Para piorar, os contratos feitos lá, ao contrário do Brasil, possuíam taxas menores no início do contrato, que aumentavam no decorrer do mesmo.

Quando os contratos entraram na fase das taxas mais altas, as pessoas não conseguiram honrar seus compromissos, e se obrigavam a vender seus imóveis. Como isso aconteceu de forma generalizada, o preço dos imóveis despencou, fazendo com que a crise tomasse corpo. Para resumir, como os bancos faziam os empréstimos e vendiam papéis para investidores, o tombo foi grande, e não precisa dizer que ainda estamos sentindo (e eu continuo dizendo que aqui ainda não sentimos tudo).

Essa breve explicação é para que vocês possam entender o que pode acontecer aqui no Brasil, porém, no mercado automobilístico. Não é de hoje que está muito fácil financiarmos praticamente o valor total dos carros novos em um prazo muito alongado, como 72 meses (creio que esse seja o maior que eu já vi). Contabilmente falando, o prazo de seis anos é um ano a mais do tempo de depreciação total do veículo, ou seja, em cinco anos, o carro não vale mais nada (contabilmente falando), e ainda estamos pagando por ele.

É de fácil interpretação que, caso ocorrerá algo parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos, ou seja, os contratos não sejam respeitados e as parcelas não sejam pagas, generalizando a situação, o preço dos carros irá despencar. O governo está(va) estudando a redução do prazo máximo dos financiamentos de veículos, mas ainda não vi nada concreto à respeito.

Fica o texto para reflexão, sugestões e crítica. Obviamente o reflexo não será tão grande como o que aconteceu nos Estados Unidos, pois o valor de imóveis supera em muito o de automóveis, e o prazo também é sensivelmente superior, o que aumenta a população envolvida.

Ciranda Financeira

February 19, 2009 Autor: Fernando Kempf Categoria: Finanças

Estava analisando tudo o que vem se falando sobre a crise, suas causas e principalmente seus efeitos. Muitas pessoas vêm dizendo que esta é uma crise psicológica, ou seja, ela talvez não seja tão forte como se comenta, mas como diz o velho ditado, “É melhor prevenir do que remediar”, as pessoas e empresas preferem segurar o dinheiro em caixa do que sair gastando ou investindo no negócio.
Como o Brasil possui a maior taxa de juros do mundo, não é de se admirar que muitas pessoas superavitárias invistam seu dinheiro extra em bancos comerciais ou de investimento, a fim de usufruir de um retorno maior no futuro.
Enquanto isso ocorre com pessoas físicas, o problema não é tão grave, quando as pessoas jurídicas começam também a investir no mercado financeiro, aí começa outro problema, a velocidade da economia diminui, e muito.
Sei que talvez muitos não vão lembrar, mas quando o Brasil possuía, além das altas taxas de juros, a inflação, isso era muito comum. Na década de 80 e na primeira metade da década de 90, com todas as trocas de moedas e regimes, o brasileiro não tinha uma visão de futuro muito ampla, preferindo manter dinheiro ao invés de consumir, o que travou a economia, que voltou a melhorar a partir da estabilidade monetária (1994) e se mantém até hoje, mas o brasileiro ainda tem aquele sentimento de imprevisibilidade quando se trata de economia.
Para exemplificar o que acontece quando as pessoas jurídicas começam a fazer aplicações: um DRE (Demonstrativo de Resultado de Exercício) parte da receita da empresa (produtos vendidos), da qual se deduzem impostos e custos de produção, chegando-se ao Lucro Operacional Bruto, do qual se abatem as despesas operacionais. As despesas operacionais, como o próprio nome diz, deveria somar um valor negativo.  Porém, exista uma subconta denominada “Receita Financeira” onde se atribui os valores oriundos de ganhos financeiros, ou aplicações financeiras, basicamente. Em uma empresa aparentemente normal, obviamente, o Lucro Operacional Bruto é infinitamente maior do que o valor das Receitas Financeiras, porém, quando as empresas começam a aplicar demasiadamente no mercado financeiro, ao invés de investir no negócio, essa relação se inverte, o que ocasiona uma Despesa Operacional positiva. Isso acontece na grande maioria dos casos, quando há desconfiança do futuro na economia.

De forma alguma isso está errado, pois afinal, ninguém quer investir em algo “duvidoso”, o rendimento bancário, por menor que seja, é certo. O governo por sua vez, tem um papel fundamental neste momento, promovendo estímulos de confiança ao empresário, baixando as taxas de juros por exemplo.

Vou tentar exemplificar agora dentro do DRE para que talvez fique mais clara a explicação:

Contas Situação “Normal” Ciranda Financeira
Receita Operacional Bruto 100 80
(-) Deduções da Receita Operacional Bruta -10 -10
Receita Operacional Líquida 90 70
(-) Custo dos Produtos Vendidos -40 -40
Lucro Operacional 50 30
(-) Despesas Operacionais -10 20
(-) Despeesa de Vendas -6 -5
(-) Despesas Administrativas -3 -3
(-) Despesas Financeiras -2 -2
Receitas Financeiras 1 30
Lucro/Prejuízo Operacional 40 50

Bom está é uma das maneiras, entre outras, das quais uma economia, partindo de uma única empresa pode começar a se retrair. Imaginem isso acontecendo com você, que pensava em trocar de carro, mas devido às incertezas, prefere esperar. Isso é o que acontece com a grande maioria das pessoas e empresas, e só piora a situação. Eis o dilema: o bom para a economia em geral, é que todos consumam normalmente ou até mais, mas individualmente falando, o ideal é precaver-se a poupar…

Crise x Oportunidade

January 20, 2009 Autor: Fernando Kempf Categoria: Finanças

No mundo, existem diversas formas de se analisar algum acontecimento, ou fato: a já conhecida história do copo meio cheio ou meio vazio. Com a crise, não poderia deixar de ser diferente,  existem vários modos de estudar e também de refletir uma crise. Serão encontradas várias supostas causas para seu acontecimento, e demorará alguns anos para que alcancemos um consenso (se é que chegaremos a algum). A essência humana é baseada na diferença individual, caso contrário, se todos pensassem da mesma maneira, não teríamos alcançado o patamar de evolução atual. O fato de pensar diferente faz com que cresçamos e desenvolvemos novos produtos, serviços e teorias.

A grande maioria das crises, sejam elas, mundiais, nacionais ou até mesmo regionais, são vistas pela grande massa da população como um problema a ser combatido e resolvido. As pessoas que fazem parte da minoria, por sua vez, veem (nova regra da língua portuguesa) a crise como uma oportunidade de crescimento, desenvolvimento, implementação de mudanças e afins.

Supondo que você é um(a) diretor(a) de uma grande empresa, e sabe que o número de funcionários ou os salários estão superavaliados, pois a produção chegou ao ápice no ano passado, mas você não podia se dar ao luxo de dispensar funcionários ou baixar salários dada sua dependência. Essa é a hora de fazer os ajustes necessários sem que isso venha a lhe causar sérios problemas internos (produtivo) ou externo (imagem da empresa) – a crise é a “desculpa”. Algumas indústrias do setor automobilistico de São Paulo já estão revendo, diretamente com os funcionários, os contratos trabalhistas, horas trabalhadas e salários, pois segundo elas, isso evitará demissão em massa, o que descontentaria aos interessados. O momento é propício, pois com a crise batendo à nossa porta, é muito mais vantajoso perdermos os anéis do que os dedos. A propensão de aceite sem muita rebeldia é maior.

Esse é o momento para cortar velhos vícios incorporados em nossas companhias e, por que não, no setor público. É sabido que o número de horas extras no setor público é bastante significativo no total de seu orçamento. Por se tratar do setor público, estabilidade, etc, caso não houvesse a crise, os funcionários poderiam boicotar uma proposta de redução de horas extras com mau comportamento, não se comprometendo em ajudar. Voltando a teoria dos “anéis e dos dedos”, os funcionários, agora por estarem receosos quanto ao futuro, aceitariam a redução com menor resistência e rebeldia.

Apesar de este ser o momento certo para se adotar novas políticas, cortando velhos vícios, existem vários projetos na Câmara de Deputados que parecem querer engessar ainda mais a já inflexível lei trabalhista brasileira. Existe uma lei, por exemplo, que quer acabar com a demissão sem justa causa. Não bastasse grande parte do funcionalismo público brasileiro ser mau visto pela população como “sem vontade”, querem que isto possa vir acontecer em todos os setores. O Brasil parece estar em descompasso com o restante do mundo ao tomar esse tipo de atitude. Enquanto nos países desenvolvidos a livre negociação entre empregador e empregado é que vale, no Brasil, o governo
insiste em dificultar esse tipo de entendimento. Não bastasse os altos juros que às vezes não justificam o investimento no setor produtivo, existem também essas leis para piorar.

Revendo Conceitos

January 08, 2009 Autor: Fernando Kempf Categoria: Finanças

Nada se compara à uma crise para que aperfeiçoemos ou abandonarmos conceitos; às vezes, retomamos velhos conceitos abandonados devido à uma falsa impressão de calmaria e robusteza econômica.

Ao olharmos para o início do ano que agora já é passado (2008), a grande maioria das empresas, analistas, professores e talvez até você que está lendo, dava como certo que as empresas deveriam aproveitar as oportunidades e os bons ventos da economia para crescer e lucrar ainda mais.

Algumas empresas ganhavam dinheiro com aplicações no mercado financeiro, que sempre foram de risco, mas para àquela época, pareciam tão certas quanto ao rendimento da antiga poupança. As que queriam aproveitar as oportunidades, mas não estar tão atreladas ao mercado acionário, se alavancaram, pois numa simples análise, podíamos observar que o crédito obtido junto à terceiros estava MUITO barato, não é a toa, afinal, que o BNDES bateu inúmeros recordes de financiamentos. A alavancagem fazia com que o WACC (Custo Médio Ponderado de Capital) das empresas diminuísse vertiginosamente, dadas taxas praticadas pelos bancos de fomento.

Isso parecia o óbvio a ser feito, afinal, quem quer deixar de ganhar um pouco de dinheiro a mais, ou fazer o seu render mais? Além do mais, a inflação já não afetava o Brasil há mais de dez anos, os juros tinham uma tendência de queda, o dólar parecia estável e a Economia internacional ia muito bem, obrigado.

Porém, algumas empresas pareciam ir contra o movimento, financiando seus próprios investimentos, ou até mesmo mantendo dinheiro em caixa, aplicado em um CDB, com um rendimento tido como baixo para a maioria das análises da época. Podemos citar o Brasil, que nesse momento mantinha uma crescente reserva de moeda estrangeira, na época, para manter o real não tão valorizado perante ao Dólar, não prejudicando as exportações. Atitude está que também foi motivo de repúdio por parte de alguns comentaristas da mídia em geral.

Pois bem, o tempo passou, a roda girou, a bolha furou, e a crise chegou.

Hoje em dia, em qualquer simples troca de canal na TV, ou leitura de reportagens em jornais ou revistas, lê-se que em momentos de crise, o ideal é ter caixa e não depender de capital externo, a alavancagem não é bem vinda.

As empresas que estavam extremamente alavancadas passam por sérios problemas de crédito hoje em dia, pois como dado que está é uma crise de confiança, elas com certeza estão sofrendo em um dos dois lados: ou sua taxa de captação aumentou, ou o prazo diminuiu; existe também uma grande possibilidade de, dependendo do tamanho da empresa, ter acontecido as duas, ou pior ainda, talvez o crédito foi simplesmente negado e não mais renovado. O Brasil, com a tão criticada reserva volumosa de moeda estrangeira, conseguiu contrabalancear toda movimentação externa, promovendo leilões de venda de moeda estrangeira, dificultando a desvalorização do Real no decorrer da crise, não punindo neste caso a importação.

É, será difícil saber se as empresas que eram tidas como “extremamente conservadoras” estavam agindo como sempre agiram ao trabalharem com o dinheiro próprio ou se por acaso estavam antevendo alguma movimentação estranha no mercado externo. Da mesma maneira, é impossível afirmar que as empresas que “surfaram a onda” se aproveitando dos financiamentos baratos, estavam totalmente errada, afinal, é difícil ir contra o consenso.

Sabemos que uma crise traz efeitos negativos que às vezes demoram anos ou até décadas para serem recuperados, mas também havemos de convir que nada melhor que uma bela crise para aguçarmos nossas mentes e procurarmos onde erramos; para descobrirmos qual o momento exato e o porquê isso aconteceu. Isso faz com que indiretamente fortaleçamos o sistema como um todo, nos prevenindo de futuras crises, ao menos, que tenham as mesmas causas que estas, pois como diz um velho ditado: “Errar é humano, permanecer no erro, é burrice”