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Ciranda Financeira

February 19, 2009 Autor: Fernando Kempf Categoria: Finanças

Estava analisando tudo o que vem se falando sobre a crise, suas causas e principalmente seus efeitos. Muitas pessoas vêm dizendo que esta é uma crise psicológica, ou seja, ela talvez não seja tão forte como se comenta, mas como diz o velho ditado, “É melhor prevenir do que remediar”, as pessoas e empresas preferem segurar o dinheiro em caixa do que sair gastando ou investindo no negócio.
Como o Brasil possui a maior taxa de juros do mundo, não é de se admirar que muitas pessoas superavitárias invistam seu dinheiro extra em bancos comerciais ou de investimento, a fim de usufruir de um retorno maior no futuro.
Enquanto isso ocorre com pessoas físicas, o problema não é tão grave, quando as pessoas jurídicas começam também a investir no mercado financeiro, aí começa outro problema, a velocidade da economia diminui, e muito.
Sei que talvez muitos não vão lembrar, mas quando o Brasil possuía, além das altas taxas de juros, a inflação, isso era muito comum. Na década de 80 e na primeira metade da década de 90, com todas as trocas de moedas e regimes, o brasileiro não tinha uma visão de futuro muito ampla, preferindo manter dinheiro ao invés de consumir, o que travou a economia, que voltou a melhorar a partir da estabilidade monetária (1994) e se mantém até hoje, mas o brasileiro ainda tem aquele sentimento de imprevisibilidade quando se trata de economia.
Para exemplificar o que acontece quando as pessoas jurídicas começam a fazer aplicações: um DRE (Demonstrativo de Resultado de Exercício) parte da receita da empresa (produtos vendidos), da qual se deduzem impostos e custos de produção, chegando-se ao Lucro Operacional Bruto, do qual se abatem as despesas operacionais. As despesas operacionais, como o próprio nome diz, deveria somar um valor negativo.  Porém, exista uma subconta denominada “Receita Financeira” onde se atribui os valores oriundos de ganhos financeiros, ou aplicações financeiras, basicamente. Em uma empresa aparentemente normal, obviamente, o Lucro Operacional Bruto é infinitamente maior do que o valor das Receitas Financeiras, porém, quando as empresas começam a aplicar demasiadamente no mercado financeiro, ao invés de investir no negócio, essa relação se inverte, o que ocasiona uma Despesa Operacional positiva. Isso acontece na grande maioria dos casos, quando há desconfiança do futuro na economia.

De forma alguma isso está errado, pois afinal, ninguém quer investir em algo “duvidoso”, o rendimento bancário, por menor que seja, é certo. O governo por sua vez, tem um papel fundamental neste momento, promovendo estímulos de confiança ao empresário, baixando as taxas de juros por exemplo.

Vou tentar exemplificar agora dentro do DRE para que talvez fique mais clara a explicação:

Contas Situação “Normal” Ciranda Financeira
Receita Operacional Bruto 100 80
(-) Deduções da Receita Operacional Bruta -10 -10
Receita Operacional Líquida 90 70
(-) Custo dos Produtos Vendidos -40 -40
Lucro Operacional 50 30
(-) Despesas Operacionais -10 20
(-) Despeesa de Vendas -6 -5
(-) Despesas Administrativas -3 -3
(-) Despesas Financeiras -2 -2
Receitas Financeiras 1 30
Lucro/Prejuízo Operacional 40 50

Bom está é uma das maneiras, entre outras, das quais uma economia, partindo de uma única empresa pode começar a se retrair. Imaginem isso acontecendo com você, que pensava em trocar de carro, mas devido às incertezas, prefere esperar. Isso é o que acontece com a grande maioria das pessoas e empresas, e só piora a situação. Eis o dilema: o bom para a economia em geral, é que todos consumam normalmente ou até mais, mas individualmente falando, o ideal é precaver-se a poupar…