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OFERTA MONETARIA E PREÇOS: QUEM CAUSA QUEM?

September 19, 2008 Autor: Ederson Vieira Grandi Categoria: Geral

Alguns manuais definem a inflação como um aumento contínuo e generalizado de preços. Lembro que meu orientador de monografia, professor Dr. Antony P. Mueller (que possui ligações à escola austríaca) me advertiu anteriormente quanto ao uso do termo “inflação”, que é alvo de debates teóricos, mesmo nos dias atuais.

Porém, existe um contraste importante da concepção das formas de moeda que existem. A moeda a qual é monopólio do Governo sua emissão é a moeda fiduciária. Por força da lei e por aceitação geral como meio de pagamento, ela é considerada como dinheiro. Existe outro tipo de moeda, que não está sob o total controle do Governo ou das autoridades monetárias (o próprio professor Mueller, em uma disciplina de Tópicos Avançados de Macroeconomia, abordou este fato como uma falha da teoria quantitativa): a moeda creditícia. Esta é gerada pelo sistema bancário, com finalidade de serem aproveitadas oportunidades de obtenção de lucro.

Em momentos de expansão econômica, e principalmente em meio à concorrência entre os bancos, estes criam fontes extras de rendimento (via inovações financeiras), de certa forma “burlando” qualquer controle governamental sobre agregados monetários, as quais são consideradas moeda. Esta consideração dos mesmos como tal se deve ao atual estágio de desenvolvimento do sistema bancário, que confere a estes ativos criados pelos bancos comerciais ou múltiplos com carteira comercial liquidez e garantias contra perdas. Este estágio de desenvolvimento do sistema bancário se caracteriza por possuir redepósitos no próprio sistema de créditos criados pelos bancos, câmaras de compensação, mercados atacadistas interbancários e, principalmente, um emprestador de última instância (o Banco Central).

O que importa é o seguinte: a criação de moeda, frente à demanda pela mesma, é dada pela autoridade monetária apenas (oferta monetária exógena), ou também é atendida pelo sistema bancário (oferta monetária endógena)? Um economista não deve estar preso cegamente a teorias que, além de não explicar adequadamente a realidade, ainda criticam a mesma por não se adequar aos seus pressupostos teóricos. A função da teoria econômica é espelhar a realidade; a “Economia é a penosa elaboração do óbvio”.

Deixarei de lado, por hora, toda a questão teórica e estatística, me detendo na descrição da realidade “óbvia”. Primeiro, uma autoridade monetária pode tentar controlar algum dos agregados monetários existentes (M1, M2, etc.) mesmo em detrimento de outros. Mas mesmo o FED, apesar de utilizar o como indicador de política monetária o conceito M2, ainda assim atua com base em uma taxa básica de juros. O usual meio de controle é a fixação de uma taxa de juros pela autoridade monetária. Para qualquer desvio causado pelo mercado financeiro a esta taxa, a autoridade monetária atuará com: emissão monetária (aumento da base monetária), variação na taxa de compulsórios e através de operações no mercado aberto, com títulos do BC ou os do Tesouro, que estejam em sua carteira. As duas últimas têm seu alcance apenas sobre as reservas bancárias compulsórias ou espontâneas junto ao Banco Central.

Se a autoridade monetária não atuasse quando de aumentos da demanda por moeda (que, aliás, não se dá apenas por motivo transacional, mas também precaucional ou especulativo, dada a existência de incerteza existente em relação ao futuro – outra falha da Teoria Quantitativa), dado o poder de fixação de preços, pelo sistema bancário, a taxa de juros cresceria, se afastando da meta. A taxa básica aumenta porque, os títulos os quais a negociação define a mesma, são também objetos desta maior demanda monetária, devido ao seu padrão de “quase-moeda”, principalmente no mercado atacadista interbancário.

A oferta monetária, em relacionando à taxa de juros num plano bidimensional, possuiria não uma forma vertical (inelástica), mas sim a forma horizontal em grande parte de sua extensão, caracterizando uma oferta acomodatícia em relação à demanda, finalizando-se com uma inclinação positiva, que denotaria o que ocorreria do não comprometimento da autoridade monetária com sua meta.

Os fatos caracterizam a oferta monetária como sendo endógena. A agregado monetário M4 tem correspondido, nos últimos cinco anos, a média 13 vezes a base monetária: a maior parte da moeda ofertada na economia não é controlada pelo Governo.

Quanto à demanda, abstraindo as demandas precaucionais e especulativas, a demanda transacional se daria com o aumento das transações ou preços. A teoria quantitativa argumenta que não havendo aumento da oferta monetária, haveria uma variação de preços relativos, sem nada acontecer no nível geral de preços. Porém, se o “Governo” aumentar a oferta, estará inibindo a necessidade de variações de preços relativos, causando aumentos gerais. A inflação do estoque monetário precederia o aumento do nível geral de preços.

A não existência de moeda creditícia corroboraria a tese de que o não aumento da oferta monetária inibiria preços, porém com seqüelas recessivas na economia. Porém, a oferta sendo acomodatícia, ou seja, endogenamente criada, ela atende a demanda. A demanda se dá por causa das transações e preços. Resultado: o aumento da oferta monetária não causa preços, mas se trata de uma corroboração aos seus aumentos, que se não feita pelo governo, será pelo sistema bancário indo até mesmo a um ponto de pressionar a alta nas taxas de juros e o crescimento da velocidade de circulação da moeda.

A explicação da inflação está em outro lugar. São as variações de preços e volume de transações que causam aumentos na oferta de moeda, ou seja, a “inflação da massa monetária”.

A explicação para as variações de preços exporá na próxima semana. Por hora, observarei apenas que estes não são dados por “simples interações” entre oferta e demanda em mercados, mas por “empresários seres humanos”, que são “formadores de preços” (price setters) e que suas decisões sofrem influencia da incerteza quanto ao futuro, das taxas de juros, acesso ao sistema financeiro e da sua capacidade de autofinanciamento.

Parece que a realidade é bem mais complicada que pensavam os teóricos da Teoria Quantitativa da Moeda….

A RESTRIÇÃO EXTERNA AO CRESCIMENTO

September 19, 2008 Autor: Ederson Vieira Grandi Categoria: Geral

Existem restrições internas e externas ao crescimento econômico. Uma delas é dada pela taxa de crescimento do estoque de capital e da força de trabalho. Existe, porém, outra restrição que é causada no processo de crescimento, sendo esta de origem externa.

Quando se fazem investimentos em equipamento e estoques, dado o nível de integração produtiva em nível internacional, parte desta demanda é suprida pela importação. Quando as empresas exportam, estão adquirindo divisas para poder pagar as importações feitas. Trata-se um autofinanciamento das empresas para realizar seus investimentos com bens e serviços produzidos no exterior.

Porém, se o valor monetário de importações de bens e serviços for maior que as exportações (déficit na balança comercial ou de serviços não fatores1, precisarão as empresas pagar de alguma forma. Alguns economistas advogam que basta um influxo de capitais para fazer frente a este déficit, ou seja, que a conta de capitais2 seja maior que o déficit na conta corrente do país. Outra receita destes economistas é a manutenção de uma taxa de câmbio apreciada, de forma a reduzir o custo das importações. Como objetivam conseguir isto? Por meio de elevadas taxas básicas de juros! Isto não lembra alguma coisa?

Mas nem todo capital ingressado no país é direcionado pelos investidores externos ao financiamento dos investimentos: parte vai parar no mercado de capitais, na aquisição da propriedade de empresas (ações), ou mesmo com o Governo, quando este adquire reservas para recompor o estoque ou enxugar as divisas do mercado cambial. Haja visto, também, que os títulos do Governo, devido a altas taxas básicas (caso Brasil) pode concorrer com o setor privado pelo capital estrangeiro.

Quando o autofinanciamento não é possível, ou seja, quando há déficit na balança comercial ou de serviços não-fatores, e não há acionistas estrangeiros enviando recursos para financiar os planos de investimentos domésticos, restam as contratações de dívidas, internas ou externas. Porém estes investimentos de acionistas estrangeiros e as dívidas externas levam, a médio prazo, em um agravamento no déficit das contas correntes (causado pelos déficits comercial e de serviços não-fatores), por meio de um déficit de serviços fatores. Isto porque, de tempos em tempos, há a remessa de dividendos e lucros para os investidores no estrangeiro, mais os juros da dívida. Desta forma, agravam-se as contas correntes do país.

Nestas horas há a atuação do Governo, pois o endividamento excessivo das empresas pode leva-las a uma fragilidade financeira tal, que choques externos levariam o país a uma crise financeira ou cambial e, por fim, econômica. Ademais, em caso de déficits em conta corrente, fontes de recursos, como o FMI, podem ser necessárias no futuro. Resta o controle dos itens da conta corrente, pois déficits recorrentes na mesma são insustentáveis a longo prazo.

Thirlwal, em seu trabalho, concebe a equação de equilíbrio na conta corrente de não-fatores, com importações de bens e serviços não-fatores sendo igual às exportações. Se não houver mudanças significativas nos preços relativos, tem-se que:

yCC = x / erM

Onde yCC representa a variação percentual na renda de equilíbrio na conta corrente, a qual o PIB efetivo fica condicionado, no longo prazo, para que haja este equilíbrio; x é a variação percentual das exportações; e erM é a elasticidade-renda das importações, ou seja, a variação percentual nas importações quando ocorrem variações percentuais na renda interna (neste caso dado pelo PIB). Se tomarmos a variação percentual das exportações acima como sendo o produto da elasticidade-renda da mesma vezes a variação percentual do PIB mundial (a taxa de crescimento mundial):

yCC / yW = erM / erX

Daí se conclui que a razão das elasticidades-renda nos dá o limite de crescimento do PIB de um país, a longo prazo, em relação ao mundo.

Se erM / erX = 1,5 (que é maior que 1), e a economia mundial crescendo, digamos, 5% a.a., o país em questão terá uma maior liberdade para crescer à taxa de 7,5% a.a. sem maiores riscos de déficits em conta corrente. Agora, se a razão for menor que 1, a taxa de crescimento do país fica abaixo da taxa de crescimento mundial. Se a taxa de crescimento da população for menor que a taxa de crescimento da restrição, a longo prazo a renda per capta crescerá e (supondo constante o nível de concentração da renda), a população passará a ter elevação no padrão de vida.

Segundo Davidson3, países em desenvolvimento possuem vantagens na produção de produtos primários e matérias-primas, mas os países desenvolvidos possuem elasticidade de demanda desses produtos. Isto causa uma elasticidade-renda de exportações dos países em desenvolvimento também baixas. Já os países desenvolvidos possuem vantagens na produção de manufaturados e, devido aos países em desenvolvimento possuírem alta elasticidade de demanda a estes bens, a elasticidade-renda de importações é, de igual forma, alta.

Assim a razão de elasticidades dos países em desenvolvimento seria menor que a dos países desenvolvidos. Países em desenvolvimento de importância em termos de bens manufaturados ou com grande exportação de produtos primários poderão4 gozar de taxas de crescimento superiores às mundiais. Porém, deve-se salientar que se as variações nos preços relativos for considerável, deve ser incluso tal variável no modelo, pois afetará o saldo da conta corrente do Balanço de Pagamentos, como é o caso brasileiro. As variações nos preços relativos têm diminuído o gap entre as importações e exportações e, somando-se o déficit devido aos serviços fatores fizeram a conta corrente registrar um saldo negativo de US$ 17,4 bi no primeiro semestre deste ano, sendo que tal resultado só é comparável ao mesmo período de 1949.

RECEITAS PARA CRISES FINANCEIRAS II: O CASO SUBPRIME

September 16, 2008 Autor: Ederson Vieira Grandi Categoria: Geral

Com base no método de análise de Mynski, visto no texto anterior, a fragilidade financeira é a base para uma crise. Ela pode ser originada por dívidas geradas por investimentos efetivados através de financiamentos. Inicia-se quando a atividade econômica decresce, e com ela a receita das empresas (já endividadas) ou o custo da dívida aumenta repentinamente, através de uma política monetária restritiva. No final, a empresa não consegue amortizar seus empréstimos, renegociações de dívidas passam a ser negadas e a bolha explode. Também ocorre, em nível internacional, quando há déficit comercial: as empresas estarão investindo e demandando divisas acima do que possuem, pelas exportações realizadas. As empresas não financiarão toda esta necessidade de divisa por meio de investimentos externos, mas também por meio de dívida externa de diversos prazos de maturação. A estrutura das contas externas do país passa a se deteriorar, e a seqüência de fatos pode ser similar ao descrito anteriormente, como na década de 1980, uma elevação da taxa de juros externa e o sistema entra em colapso.

Um terceiro meio, puramente especulativo, é iniciado através do desejo de obter maiores ganhos. Nos EUA, o FED atuou entre 2001 e 2003 uma política de redução brusca da taxa básica de juros, a níveis reais negativos. Taxas similares foram registradas anteriormente apenas na década de 1950. O objetivo era o favorecimento do mercado de capitais, com a dispersão dos investidores dos títulos públicos a este mercado. Porém não foi realizada a devido monitoramento e tomados os devidos cuidados com a possível criação de uma “bolha especulativa” (que poderia nascer de qualquer ativo na economia), que já era sinalizada por um mercado em específico: o imobiliário.

Os emprestadores, devido à ausência de regulações, começaram a fornecer crédito a pessoas com histórico de inadimplência, pois a taxa de juros dos mesmos era maior que a dos títulos públicos e renda fixa, e o risco menor que o de títulos de renda variável. O mercado hipotecário de baixa qualidade, denominado sub-prime, era uma opção à renda fixa e variável. A participação do sub-prime no mercado de crédito hipotecário americano chegou ao patamar de 15%, em 2007. As dívidas passaram a ser securitizadas e estes títulos, passaram a ser adquiridos por bancos e fundos de investimento, inclusive de outros países do mundo, gerando uma ligação a nível internacional com o mercado sub-prime.

Do lado dos tomadores de empréstimos, tratava-se de uma oportunidade as taxas de juros caindo. Renegociavam seus empréstimos com ganhos: sobrava recursos que eram gastos em consumo. O consumo dos EUA cresceu de US$ 213,5 bi, em 1998, para US$ 738,6 bi, em 2007. os empréstimos eram na modalidade de 3/27 ou 2/28. No primeiro caso, e.g., correspondia a três anos de prestações baixas e juros fixos, seguidos por vinte e sete anos de prestações mais altas (visto que as prestações baixas nos primeiros anos fizeram o saldo devedor total não ter se reduzido muito) e juros variáveis. Com taxas de juros em baixa, juros variáveis pareciam atrativos. Ademais, vencidos os três primeiros anos, buscava se renegociar a dívida para novamente entrar no plano de três anos de prestações baratas. Esta foi a fase do deslocamento, euforia. Este mercado impulsionou a aquisição de imóveis e com ela, os preços destes. O consumo, emprego, preços de ações das empresas de construção cresceram juntamente. Os títulos da dívida destes empréstimos consistiam, aparentemente, em uma boa opção de investimento. Ocorria a mania especulativa.

Porém o FED passou a aumentar as taxas de juros, a partir de 2004, frente às crises internacionais. O módulo de prestações altas e juros variáveis era pesado demais. Renegociar a dívida com as taxas subindo dificultavam a adimplência dos mutuários. Era só contar: iniciou-se o processo em 2001: duas vezes em que os mutuários tentassem aproveitar uma renegociação, de modo a aproveitar as taxas fixas (porém agora mais altas, o que tornou o custo da dívida pesado, frente às receitas dos mutuários), são seis anos. A crise se deu em 2007. Coincidência?

Em agosto de 2007 detectada uma alta taxa de inadimplência no mercado sub-prime. Em 09 de agosto do mesmo ano, o banco francês BNP Paribas, um dos principais da região, havia congelado os saques de seus fundos de investimentos que tinham recursos aplicados em créditos gerados a partir de operações hipotecárias nos EUA: foi o estopim da crise, a bolha explodiu e se inicia a reação violenta. O mercado já monitorava a tempos o histórico de inadimplência deste segmento de crédito. Porém, agora a inadimplência superou as expectativas. Com o contágio de caixa, empresa após empresa passou a relatar problemas de liquidez.

O problema de liquidez, nas instituições financeiras, que precisavam reaver recursos obtidos da venda dos títulos de dívidas do mercado sub-prime, além de não contar com considerável montante de receitas devido à inadimplência neste setor, foram atacados pelo contágio de expectativas de seus depositantes. As pessoas pensando que os bancos iriam quebrar correram a reaver seu dinheiro, gerando uma expectativa auto-realizável: achavam que os bancos iriam quebrar e agiram de modo a provocar tal fato. Este pânico é o que se denomina de crise financeira, i.e., uma corrida por liquidez.

Para uma vítima de corte, antes da transfusão, deve-se fechar o corte, ou qualquer ação corretiva será infrutífera. O primeiro passo, nestas crises, é impedir que novas ocorram: deve-se regulamentar o mercado onde iniciou o boom. Em seguida, deve-se eliminar o contágio de expectativas. Para isto, deve um emprestador de ultima instancia sinalizar aos agentes econômicos que haverá liquidez para todos, impedindo a continuidade da corrida por liquidez. Esta corrida acaba por gerar contágios de caixa, afetando o sistema por inteiro. Este cuidado inclui não permitir a quebra de instituições financeiras, o que alimentaria a crise (corrida por liquidez). Faz-se importante a atitude do Tesouro em socorrer as instituições ligadas ao sub-prime à beira de quebra.

Como a crise se propaga por contágio de expectativas, e o Brasil possui elevadas reservas cambiais, não há temor de falta de liquidez no mesmo. O contágio de caixa é a única preocupação, mas os negócios do Brasil com os EUA, no qual algum agente econômico do primeiro seja credor de algum do segundo, são muito poucos. A crise poderá chegar no Brasil por meio do baixo nível de crescimento do PIB mundial, o que tende-se a ampliar com uma política monetária restritiva, como a que o país atualmente pratica.

Não devemos nos preocupar com as quedas ocorridas na bolsa nesses dias. Os investidores estarão agindo com a expectativa de que seus ativos se desvalorizarão, corroborando tal fato. Mas o que é o Ibovespa, que caiu mais de 7% ontem? É a Petrobras, a Vale, a CSN…, ou seja, algumas empresas que, por expectativas de maior recessão americana, tiveram suas receitas prospectadas reduzidas. No caso americano, as bolsas são representativas de todos os setores da economia. Quando os índices das bolsas de lá caem, é sinal de que toda a economia está indo mal.

O Brasil parece estar imune a estes fatos devido às grandes reservas cambiais, e tem aceitado uma taxa cambial extremamente valorizada, o que piorou o saldo comercial nos íltimos meses: o superávit na balança comercial tem se reduzido continuamente. Quando há a saída de lucros, juros e dividendos, a conta corrente fica negativa. A tranquilidade em relação a isto reside no grande influxo de capitais. Mas esse fluxo de divisas não é sustentado: depende da liquidez mundial e dos humores de investidores em meio a um período contubado. Estes fluxos podem não estar a nosso favor amanhã. As reservas do Bacen um dia se acabam. Uma coisa é certa: a única fonte sustentável de divisas é por meio de superávits comerciais (que tendem a ficar menores, devido à valorização cambial e às quedas nos preços de commodities, principais itens na pauta de exportação).

Quanto aos EUA, se alguma instituição não atuar como emprestadora de última instancia, veremos o agravamento da crise nos próximos dias, algo similar ao que ocorreu em 1933, quando a corrida por liquidez não foi suportada por diversas instituições financeiras, que acabaram quebrando. Contágios são iminentes, dada a atual estrutura do sistema financeiro mundial: uma malha interligando vários países. O que o mundo não precisa agora é de uma atitude irresposnsável de um Governo que permitiu a grande desvalorização de sua moeda, um déficit em conta corrente próximo de 7% do PIB e déficits públicos enormes: é necessário sustentar a liquidez do sistema financeiro! É necessário um emprestador de última instância! Quem vai ser? O FED ou o Tesouro?

RECEITA PARA CRISES FINANCEIRAS I

September 15, 2008 Autor: Ederson Vieira Grandi Categoria: Geral

Um padrão reconhecível nas várias crises financeiras, desde o início do sistema capitalista, é a postura de fragilidade financeira tomada pela maioria dos agentes de uma economia. O padrão foi inicialmente concebido pelo economista Hyman Minski e pode ser visto na excelente obre do economista Charles Kindleberger denominada “Manias, Pânicos e Crises”. O processo se dá nas seguintes fases: deslocamento, euforia, mania, reação violenta e pânico.
O deslocamento é um choque exógeno que dá início a um processo de especulação com algum ativo da economia. O ativo pode assumir diversas formas, dependendo da época e do lugar (já houve especulação e crise financeira através do comércio de tulipas!). Este choque pode ser uma guerra, mudanças de ordem política ou até mesmo uma política monetária. O importante é a atuação do endividamento e da posterior deterioração financeira, para que haja uma crise financeira. Desta forma, geralmente a liberalização financeira, no sentido de menor coordenação central aos bancos; desintermediação bancária; diminuição da aversão ao risco por parte dos emprestadores; e crédito fácil e barato são passos da receita para que um país possa ter uma crise financeira que inicie em seu interior (já que não há sentido em falar em crise financeira interna, pois pela globalização financeira, efeitos de contágios de expectativas e efeitos de caixa tendem a espalhar crises do país de origem para outros).
Por exemplo, uma redução da taxa básica de juros (política monetária) pode tornar o crédito barato, o que somado à falta de coordenação (necessidade na presença do mercado, que é ineficiente por si próprio) e à presença de um ciclo de crescimento econômico fazem surgir ativos de interesse à especulação. Isto porque para emprestadores, com a queda na taxa de juros, precisam procurar novos meios de render seu “capital”.
A segunda parte da receita é a euforia. A especulação já começada, impulsiona o crescimento do preço do ativo-objeto de especulação. Com o preço subindo, os investidores expectarão maiores receitas, alavancando suas posições financeiras, por meio da contratação de empréstimos para investir no ativo na alta. Esta alavancagem (capital de terceiros/capital próprio) chega a limites que tornam instáveis a posição do tomador. Porém os bancos, com menor aversão ao risco, devido ao ciclo de crescimento econômico e a ausência de regulação, continuam a emprestar. Este processo continua a pressionar para cima o preço do ativo-objeto. Enquanto isso, em termos macroeconômicos, havendo a presença de capital externo no mercado do ativo-objeto, pode ocorre a apreciação da moeda do país-se do ativo-objeto, dependendo do volume de transações, principalmente em termos monetários (estamos considerando aqui, apenas aquelas especulações instáveis em volume grande o bastante para gerar uma crise, via contágio e caixa – termos que serão explicados mais à frente). Com a apreciação cambial, há a deterioração da conta de transações correntes do país-sede.
Na terceira fase, denominada mania, começam a entrar no mercado pequenos investidores, pessoas que começaram a ver possibilidades de ganhos na especulação com o ativo-objeto. Estes nem necessitam se endividar para passar a uma posição de instabilidade financeira: qualquer perda que possam incorrer é mais que suficiente, na maioria dos casos, para lhes tornar insolventes, com posição deteriorada.
Na quarta fase, denominada reação violenta, ocorrem dois processos, um dentro do mercado e outro fora. Dentro do mercado, há a realização de lucros e a saída de alguns investidores com consideráveis valores monetários. Isto gera a queda na taxa de crescimento do preço do ativo-objeto. Os demais, com uma posição financeira alavancada, que dependem das receitas provindas do crescente preço do ativo-objeto, para cobrir os débitos com a amortização do principal e dos juros, começam a ter dificuldades em pagar seus débitos mensais. Tornam-se impelidos a renegociar periodicamente os juros, pagando apenas o principal. Neste período, dado que o crescimento do preço do ativo-objeto é acompanhado pelo crescimento dos preços de outros ativos na economia e, conseqüentemente, do nível geral de preços, a autoridade monetária procederá com o aumento da taxa básica de juros, de forma a conter a inflação. Enquanto isso, aqueles que estão renegociando suas dívidas passam a ter maiores dificuldades, visto que os juros para a contratação crescem juntamente com a taxa básica.
A taxa de variação dos preços passa, com a saída de mais investidores do mercado, a apresentar valores negativos. Esta é a EXPLOSÃO DA BOLHA. A deterioração financeira da maioria dos agentes leva ao crescimento da inadimplência. O contágio de caixa atua sobre os emprestadores, que agora passam a apresentar situação próxima da insolvência. Este fato gera o contágio de expectativas, onde os agentes esperando a quebra das instituições financeiras, pelo medo de perderem sua riqueza depositada nestas, dão início à crise por meio da fase denominada “pânico”.
A crise financeira inicia com o pânico, pois sabendo que a maioria da moeda disponível é escritural (apenas eletrônica) e que nunca há liquidez para que todos “facharem” suas posições, as pessoas correm para os bancos retirar seu dinheiro. É a chamada corrida por liquidez. Esta corrida é uma profecia auto-realizável: as pessoas, dado o contágio de expectativas, acreditam que os bancos vão “quebrar” e acabam fazendo isto acontecer realmente.
Assim, após a bolha explodir, vem a crise bancária. A quebradeira de bancos pode gerar uma estagnação enorme na economia, pela falta de crédito, mas o principal problema nesta fase é pelo contágio de expectativas: a preferencia por liquidez na economia é de tal forma que mesmo que a autoridade monetária tente fornecer esta liquidez, a mesma se “esvai” pelo canal do mercado financeiro internacional para outros países com maiores remunerações. É um processo similar à armadilha da liquidez de Keynes. Há, agora uma crise no balanço de pagamentos, pela fuga dos capitais que financiavam a posição contábil de déficit na conta de transações correntes, acompanhado de uma desvalorização externa da moeda do país-sede sem que seja tal acompanhada pela desvalorização interna, via aumentos nos níveis gerais de preços internos.
Solução deve ser encontrada em duas fases. Primeiro, deve-se resolver a crise bancária e, em seguida, o déficit na conta de transações correntes, de forma a não depender da conta de capitais para zerar o Balanço de Pagamentos.
A crise financeira pode ser amenizada e eliminada, com a eliminação da crise bancária: deve haver um emprestador de última instância que garanta aos agentes econômicos: “vai haver dinheiro para todos, vai haver liquidez para todos, iremos garantir isto”. Este pronunciamento deve ser acompanhado pela demonstração através de sucessivas quedas na taxa básica de juros da economia. Isto ajuda a amenizar a crise financeira e, a longo prazo, a crise econômica que a primeira possa ter criado, por meio de aumento do nível de investimentos e seu efeito multiplicador.
Deve haver a criação, ao mesmo tempo, do mercado do ativo-objeto, de forma a estancar o sangramento da ferida aberta. Na próxima semana, faremos uma análise da crise nos EUA, fazendo um paralelo com o que foi exposto aqui.

Se alguém quiser deixar seu comentário ou possuir dúvidas a respeito desta “receita”, deixo claro que terei o enorme prazer em responder a suas questões. Disponho, também, meu e-mail caso queiram fazer contato direto: edersongrandi@bol.com.br a respeito do assunto ou de outros que eu tenha exposto aqui ou no site Mundo RI Negócios e Relações Internacionais.


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