Afinal, o que está acontecendo com o preço das commodities?

Apesar da turbulência no mercado de crédito internacional e da desaceleração da atividade econômica nas maiores economias desenvolvidas do mundo, o preço das commodities – especialmente petróleo, níquel, estanho, milho e trigo – alcançaram valores recordes nos últimos meses.
Isto pode ser explicado basicamente por cinco fatores:
1) Aumento da demanda global devido ao crescimento populacional (principalmente na China, Índia e Oriente Médio) e ao aumento da renda per capta mundial.
No caso do petróleo, aproximadamente 56% do aumento da demanda global deveu-se a China e Índia. De 2001 a 2007 a China quintuplicou sua frota de automóveis e estima-se que em 2016 ela ultrapasse os EUA em venda de automóveis, atingindo a marca de 11 milhões de veículos/ano, chegando a praticamente 18 milhões/ano em 2030. No mercado do cobre os dados se repetem. A China, sozinha, foi responsável por 90% do aumento da demanda desde o ano 2000 para cá.
No que se refere aos alimentos, verifica-se que a população dos países emergentes não estão apenas comendo mais, mas com o aumento da renda per capta estão mudando seu padrão de consumo para uma dieta rica em proteína como carne, peixe e óleos vegetais. Em 2006, a China foi responsável por 20% do consumo mundial de trigo, milho, arroz e soja.
2) A produção de biocombustíveis catapultou a demanda de determinados produtos.
A alta recorde no preço do petróleo e os subsídios generosos dados pelos EUA e pela União Européia (UE) à seus agricultores incentiva a produção de biocombustíveis. Segundo o FMI, os EUA e a UE são hoje os maiores produtores mundiais de etanol e biodiesel, respectivamente. O problema é que grande parte da produção de grãos, principalmente milho e canola, estão sendo aplicados na produção de biocombustíveis. Segundo o Departamento de Agricultura Americano 27% do milho colhido pelos EUA foi usado na produção de etanol. Isto está causando uma assimetria de preços que significa que, o aumento do preço do petróleo está levando a uma aumento do preço dos biocombustíveis, incentivando o aumento da oferta. Por sua vez, o crescimento da produção de biocombustíveis acarreta uma escassez de grãos e conseqüentemente um aumento no preço dos alimentos.
Se não bastasse isso, o crescimento da produção de biocombustíveis não está ajudando a arrefecer a alta no preço do petróleo visto que representam menos de 1,5% da oferta de combustíveis para o setor de transporte.
3) Demora na resposta da oferta ao aumento de preços.
A oferta de commodities tende a ser inelástica ao preço, ou seja, o aumento de preços tende a ser maior que a resposta dos produtores no aumento da produção. Isto pode ser observado pelo crescimento da oferta em níveis menores que o aumento da demanda nos últimos anos. Com isso os estoques globais, principalmente de petróleo e alimentos, estão nos níveis mais baixos dos últimos 20 anos. No caso do petróleo verifica-se também um declínio do tamanho médio das novas reservas descobertas, associado aos desafios tecnológicos em explorar novos campos em águas profundas e nas chamadas oil sands1.
4) Aumento de preço devido a demanda cruzada entre os produtos.

Por exemplo, no caso do etanol produzido pelos EUA a partir de milho. O aumento da demanda por etanol foi responsável pelo aumento do preço do milho que por sua vez foi responsável pelo aumento do preço da carne, uma vez que o milho é um insumo para o setor. Da mesma forma, o aumento do preço do milho acaba gerando também um aumento do preço de seus substitutos diretos como a soja por exemplo.
5) Baixas taxas de juros internacionais e a depreciação do dólar.
Devido ao excesso de liquidez internacional, a necessidade de diversificar investimentos para aumentar a rentabilidade e a rápida expansão do mercado financeiro de commodities houve uma migração de recursos de títulos do tesouro para aplicação em contratos futuro de commodities. Como o preço é determinado em bolsa de valores e normalmente o preço futuro acaba puxando o preço a vista, um aumento da demanda no mercado futuro, com conseqüente aumento do preço futuro, como em uma profecia auto-realizável 2, acaba por elevar o preço a vista.
Fruto de uma década de forte crescimento da economia mundial, este cenário não deve mudar pelos próximos cinco anos, período em que a chamada segunda geração de biocombustíveis – produzidos a partir de fontes diversas de biomassa não usadas na alimentação humana como o bagaço da cana-de-açúcar, serragem, celulose, etc… – esteja sendo utilizada em grande escala. Isto acabaria por reduzir a demanda de grãos para produção de biocombustíveis e os preços tenderiam a estabilizar-se. Outra solução, porém muito improvável de acontecer devido a queda-de-braço existente entre países “desenvolvidos” e em “desenvolvimento”, seria uma liberação de mercados e redução de subsídios agrícolas o que possivelmente incentivaria o aumento da oferta global de alimentos. A questão é que nem uns nem outros parecem estar dispostos a abrir concessões. Enquanto isso, viveremos um cenário sombrio já que tanto a UE como os EUA têm metas ambiciosas de crescimento do uso de biocombustíveis em sua matriz energética.

  1. Areias betuminosas cuja reserva está localizada no norte do Canadá e estimada em 1,7 trilhão de barris. O petróleo é separado da areia através de um processo de destilação.
  2. Profecia auto-realizável: exemplo, se o Banco Central diz que a inflação será de 5% e todo mundo crê que ele vai fazer de tudo para que isso ocorra, os agentes (famílias e empresas) já se programarão para reajustar seus produtos em 5% de forma que a inflação realmente será de 5%.

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